Urca: a onda internacional que quebra em pleno Nordeste
A história do secret nordestino que virou notícia no mundo todo, entrou no radar da WSL e hoje é chamado por muitos de melhor onda do Brasil.

Desde quando conheci este tesouro em pleno Nordeste brasileiro, fiquei pensando em quantos picos secrets devemos ter no nosso litoral. Quando falo "secret", falo secreto mesmo — daqueles com dificuldade de acesso, que nos dão a incerteza do sucesso. Na realidade, este é um dos fatores que fazem muitos puxarem o bico numa trip desse gênero.
Nos dias de hoje existe a concepção de que tudo precisa ser fácil, rápido, na palma das mãos, como o mundo num celular. Com isso, quantas ondas poderiam estar sendo exploradas sem precisar sair do Brasil? Talvez seu sonho esteja mais perto do que você imagina. Sabemos que alguns secrets dependem de vários fatores para dar certo. Imaginem quantas vezes esta onda quebrou sozinha porque as pessoas não arriscaram surfá-la. Se você não arrisca, jamais terá a glória.
O roncador: como tudo começou
Foi com essa visão que um mergulhador da Petrobrás chamado Ivo, na década de 80, prestando serviço às plataformas na região de uma das Urcas, avistou ondas grandes e perfeitas, chamadas pelos pescadores de "o roncador" e até então jamais surfadas. Impressionado com o tamanho e a qualidade, Ivo foi à surf city mais próxima, Natal-RN, onde encontrou o veterano Armando Diniz, que de prontidão aceitou o convite. Foram ao encontro de um verdadeiro "monstro do mar", a Urca do Minhoto, como é conhecida hoje, junto com os pescadores que completavam os oito tripulantes da primeira expedição.
"A onda é grande, ronca e cabe um barco dentro" (risos), comentavam os pescadores.

Uma verdadeira odisseia
Com o tempo, a onda deixou de ser frequentada. Anos depois, surfistas da era moderna, inspirados em filmes e a fim de explorar ondas diferentes, deram início a uma verdadeira odisseia. Com a evolução do esporte vieram pranchas ideais para ondas grandes, coletes infláveis e o fundamental Jet Ski. Surfistas experientes como Danilo Costa, ex-Elite do Surf Mundial, Leonardo Maia, que já concorreu ao prêmio XXL em Nazaré (Portugal), e o carismático big rider Aldemir Calunga, ídolo de gerações, formaram uma equipe de sangue nos olhos. Até que recebi uma ligação do Calunga me intimando a seguir para a Urca, saindo de Fortaleza com Lapinho e Marcelo Mota. Não pensei duas vezes.
Na época eu morava em Pipa-RN e fui até Mossoró aguardar a dupla, que vinha num Gol 1.000 tão carregado — muita bagagem, pranchas gigantes e um Jet Ski — que fez a viagem toda entre 40 e 60 km/h (risos). Seguimos para Guamaré, a 404 km de Fortaleza, base onde nos hospedamos e de onde os barcos partem para a Urca.
Chegando em Guamaré, estranhávamos a forma como as pessoas olhavam pro carro. Nos sentimos verdadeiros alienígenas! Num restaurante, o garçom perguntou com um sorriso debochado: "Vocês são surfistas? Mas vão surfar a Urca?" Incomodado, abri fotos em sites e mostrei alguns feitos do Lapinho e do Calunga. O sorriso de deboche sumiu na hora.

O dia em que o sonho se realizou
Seguimos às 3 horas da manhã rumo à tão sonhada onda. O mar estava liso e, a 1 km da bancada, já víamos ondas brilhando no horizonte. Eu e Calunga fomos conferir de perto e, para nossa surpresa, o Jet deu problema e ficamos no olho da onda (risos). Sorte que a correnteza nos levou de volta ao barco. A sede de ondas era tão grande que, mesmo sem Jet, a galera caiu no mar. Lapinho, com uma prancha nove pés, pegou a primeira onda da trip e não acreditava que aquilo fosse no Brasil. As ondas variavam de 7 a 10 pés e passamos uma das manhãs mais felizes de nossas vidas. Todos surfaram a Urca.
Após a ida de nomes como Calunga, Lapinho, Danilo Costa e Leonardo Maia, os rumores chegaram às praias. As fotos que produzi viralizaram e rodaram o mundo, despertando o interesse de grandes nomes do surf de ondas grandes — Pedro Calado, Felipe Cesarano, Marcos Monteiro, Rodrigo Resende, Michaela Fregonese (primeira e única mulher a surfar a onda até o momento), Fábio Gouveia, Kauli Seadi, Alemão de Maresias e Pedro Scooby, entre outros. Também não podemos esquecer do nosso representante, o cearense Artur Silva, bicampeão brasileiro e cria da Praia do Futuro, que se destacou surfando as grandes na remada.

O swell histórico de 2 de março de 2018
A partir de toda a repercussão, a Urca viveu um swell histórico que prometia ondas cinematográficas. Surfistas de vários lugares do Brasil viajaram acreditando no sonho de surfar uma onda internacional em pleno território nordestino. Eram de 6 a 8 barcos no canal, com equipes de Pipa, Natal, Fortaleza e Recife. O primeiro a cair na água, sem sequer conhecer o pico, foi o destemido cearense Zé Coco, que nas primeiras remadas tomou uma série que fez os 8 barcos ficarem eufóricos.
Aproximadamente 60 pessoas na água, ondas que variavam de 8 pés (as menores da série) a 16 pés. Verdadeiras paredes gigantes, algumas quase insurfáveis. O Jet Ski era fundamental para as maiores. Dos 60, cerca de 20 surfaram a onda. Muitos foram arrastados pela correnteza e ficaram na zona de impacto — na Urca, em segundos você é puxado para baixo do pico. Alguns tiveram as pranchas partidas e precisaram ser socorridos por surfistas experientes, como o Dr. Leonardo Maia, que pilotava o Jet e revezava com Calunga, salvando vidas.

Naquele 2 de março de 2018 a Urca virou notícia no mundo todo, chamando a atenção da WSL na categoria XXL. Para minha sorte, uma foto que fiz foi considerada a maior onda surfada no mundo naquele dia — dropada por Pedro Calado, um dos destaques ao lado do big rider Leonardo Holanda e de Aldemir Calunga, que avisou no barco: quem visse um louco pegando um tubo de braços abertos, sem as mãos na onda, seria ele. E assim ele fez, logo na primeira.
Uma caixa de surpresas
A trip para a Urca é uma caixa de surpresas. São horas de barco pequeno, 3 horas da costa, risco de vida real. Jet Ski quebrado, material fotográfico perdido, barco virado, celulares ao mar, motor de lancha batido... A trip para o velho roncador só termina quando se chega em casa. Ir à praia e ver boas ondas é normal; ver um secret como este quebrar no Nordeste é anormal — é uma viagem internacional em pleno território brasileiro.

Deixo meus agradecimentos às pessoas que fizeram parte dos meus projetos na Urca e que caminham comigo até hoje: minha família, minha namorada Laryce Freire, a marca que me veste COAST, a Fassola Surf School e a SS Prancharia.
Leia também
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Perguntas frequentes
Onde fica a onda da Urca?
No litoral do Nordeste, na região de Guamaré e Macau (RN), a cerca de 3 horas de barco da costa. É um secret de difícil acesso.
Por que a Urca é considerada uma das melhores ondas do Brasil?
Por ser uma onda grande, tubular e de padrão internacional que chega a 16 pés, rara no Nordeste, e que já entrou no radar da WSL na categoria XXL.
É perigoso surfar a Urca?
Sim. São horas da costa, correnteza forte e zona de impacto pesada. Exige experiência, colete, jet ski de apoio e equipe.
Por Cícero Júnior
Publicado em 20 de junho de 2026 por Redação Beach Show
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